Devaneios Concretos · Ensaio
Quando o projeto para, proponha o próximo passo
Quando um projeto trava, o reflexo é esperar alguém decidir por você. Por que eu prefiro propor o próximo passo, e por que esse passo começa com um acordo.

Eu fui contratado pra entregar uma coisa bem específica numa empresa. Era chegar, entender o desafio e começar a produzir. Quando cheguei, o plano tinha mudado: a empresa estava no meio de uma decisão grande de tecnologia, e o que eu fui fazer ia ficar em espera. Sem prazo claro. Podia ser um mês, podiam ser dois. No primeiro dia, eu já tinha um problema na mão. E agora?
A minha posição, depois de viver isso: quando o projeto para, você não espera te darem um objetivo. Você lê o momento, enxerga onde dá pra entregar mais e propõe o próximo passo, abertamente, antes de executar.
Sem o acordo, é rebeldia. Com o acordo, é liderança.
Esperar te deixa invisível
O reflexo, quando isso acontece, é esperar. Você fica em stand-by e aguarda alguém decidir o que fazer com você. Nem é preguiça; parece a coisa certa. Se o projeto travou, o problema é da empresa.

Só que, esperando, você fica invisível. Vira um custo parado que uma hora alguém vai olhar e perguntar pra que serve. E perde a única janela em que dava pra fazer algo diferente.
No meu caso, tinha um detalhe a mais. A liderança que me contratou estava preocupada, e não era com o meu trabalho. Era logística: o que fazer comigo durante a espera. Essa dúvida estava na mesa, e eu podia ajudar a responder ou esperar que respondessem por mim.
O que eu fiz no lugar de esperar
Eu parei e me perguntei: já que o que eu vim fazer não vai rolar agora, onde consigo entregar um valor maior nesse tempo? Olhando de perto, deu pra ver. O que estava na mesa era "ajusta a interface". Mas aquele produto não tinha sido construído com dado nenhum. Era o que uma pessoa achava, o que outra pedia, gosto pessoal virando decisão. Ninguém tinha base pra saber se as escolhas faziam sentido. Tinha uma fragilidade enorme bem na minha frente, e eu tinha tempo e repertório pra atacar ela.

E aqui está a parte mais importante: eu não saí fazendo. Não peguei a ideia e fui executar escondido pra surpreender todo mundo no final. Se eu fizesse isso, mesmo dando certo, eu seria o designer que entregou o que ninguém pediu. Isso pega mal.
O que eu fiz foi propor. Sentei com quem precisava, dos dois lados, e coloquei na mesa: o que eu vim fazer não vai dar agora, mas eu enxergo essa fragilidade aqui e consigo atacar ela nesse tempo de espera. Topam? A reação foi um "sério, você consegue fazer isso?". A partir dali, não era mais ideia minha solta. Era um acordo.
Três tempos, pra repetir em qualquer lugar
- Descobrir qual é o problema real.Você foi contratado pra resolver um problema, mas ele muitas vezes chega mal explicado, ou ninguém formulou direito. Se o motivo do pedido veio raso, o seu primeiro trabalho é achar a dor de verdade. No meu caso, o pedido era ajustar a interface; o problema era que as decisões estavam sendo tomadas sem base.
- Propor o acordo.Aberto, na mesa, pros dois lados, antes de executar qualquer coisa. É o passo que mais gente pula, e é ele que transforma a sua ideia em compromisso compartilhado. Some o risco de entregar uma surpresa que ninguém queria.
- Improvisar a ferramenta pra cumprir o que prometeu.Eu não tinha plataforma nenhuma pra medir a experiência do usuário. Montei um formulário simples na mão e pedi pro time de atendimento preencher a cada contato. Era tosco? Era. Mas em pouco tempo eu tinha dado real onde antes não tinha nada. Esperar a estrutura ideal teria me deixado parado de novo.
Quando o time entende
Com o dado na mão, juntei num workshop todo mundo que podia ser impactado pela mudança. Mostrei o que tinha descoberto, como eu imaginava a solução e por quê. E aconteceu uma coisa que eu não tinha planejado: gente que achava que design era deixar a tela bonita começou a enxergar pesquisa, usuário e negócio ligados. Começaram a pensar junto e a propor.

A prova de que o time entendeu não foi elogio. Foi o que veio depois. O que era pra ser um ajuste de interface, uns widgets numa tela, virou outros projetos. Começaram a me chamar pra pesquisa em outras frentes, e até pra reestruturar uma plataforma de RH. No meio disso apareceu coisa que ninguém via, como uma jornada que tratava todo mundo igual quando eram perfis completamente diferentes, comprando por motivos diferentes.
O escopo do design cresceu dentro da empresa sem eu pedir mais espaço. E aquela preocupação do começo, sobre o que fazer comigo durante a espera, virou alívio.
Onde essa ideia tem limite
Propor não garante um sim. Às vezes a resposta é "agora não", e aí o acordo também vale: você respeita, e a proposta fica registrada pra quando o momento mudar. E proposta boa nasce de um problema real. Se você não descobriu a dor de verdade antes, o que você está oferecendo é só ocupação.
A pergunta que fica
Se você reparou que eu bati muito na tecla do acordo, tem motivo. Eu aprendi a importância dele do jeito difícil. Um dia eu tive uma visão que jurava ser incrível, mudei o rumo do projeto na minha cabeça, fui executar e o trabalho se perdeu. Não porque era ruim, mas porque eu pulei o acordo. Essa é a próxima história.
Enquanto isso, me conta: qual foi a última vez que um projeto parou no seu trabalho, e o que você fez com esse tempo?
Conversa
Comentários
Leandro OtaAutorFixado
Projeto parado acontece com todo mundo. Qual foi a última vez que isso aconteceu com você, e o que você fez com esse tempo? Se propôs alguma coisa, conta como foi o acordo.
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