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Como estruturar um case de portfólio

No texto anterior eu disse que um case muito bom vale mais que dez medianos. Fica a pergunta prática: como se escreve esse case?

Ilustração: à noite, a engenheira escreve numa máquina de escrever retrofuturista, com cinco cartões enfileirados na mesa, o último em branco, e o monitor ainda desligado ao lado
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No texto anterior eu disse que um case muito bom vale mais que dez medianos. Fica a pergunta prática: como se escreve esse case?

A maioria dos cases que eu vejo cai em um de dois formatos. Ou é galeria de telas, bonita e muda, ou é relatório acadêmico, com o duplo diamante passo a passo e cada etapa do processo descrita como se fosse obrigação. Os dois mostram o que a pessoa fez. Nenhum mostra por que ela fez.

A minha posição: um bom case responde, na ordem, às perguntas que quem avalia vai fazer. O que era o projeto? O que te pediram? O que você descobriu que era de verdade? O que você decidiu? E o que aconteceu depois? Eu uso uma estrutura de cinco blocos que segue exatamente essa ordem:

  1. Contexto, em duas linhas.
  2. O que foi pedido, literalmente.
  3. O que realmente era.
  4. As decisões, não as atividades.
  5. O resultado, com uma nota honesta sobre o que não foi resolvido.

Pra mostrar cada bloco funcionando, vou usar um case meu: o app de um cartão premium, feito pra um banco grande em parceria com uma bandeira internacional.

1. Contexto, em duas linhas

Quem lê precisa saber onde está pisando, e só isso. Que produto, pra quem, em que momento. Se o contexto passa de duas linhas, quase sempre tem decisão escondida ali que devia estar mais pra frente.

No exemplo: um app de cartão premium, com duas marcas fortes dividindo o mesmo produto. A tensão cabe numa frase: premium e familiar puxam pra lados opostos.

2. O que foi pedido, literalmente

Aqui vai o pedido como ele chegou, sem enfeitar. Esse bloco existe pra criar contraste com o próximo, e é o contraste que mostra o seu julgamento.

No exemplo, o briefing pedia proximidade com o app do banco, que era referência de execução, mas ao mesmo tempo uma experiência diferenciada.

3. O que realmente era

Esse é o bloco mais importante, e o que quase todo mundo pula. É onde você conta o que descobriu que o pedido não dizia.

Ilustração: a engenheira, num barco ao amanhecer, olha a ponta de um iceberg, e, em corte abaixo da linha da água, aparece a parte escondida, muito maior
O que o pedido não dizia

No exemplo, a definição de como combinar as duas marcas não estava fechada, e não cabia a mim. O projeto não podia ficar parado esperando essa resposta. O problema de verdade, então, era outro: o app não precisava saber qual seria a decisão de marca; precisava não depender dela. E não era só um app. Eram três superfícies: o aplicativo do cliente, um acesso web pra gestão do cartão e uma camada administrativa.

Repara que a informação "isso não era minha decisão" entra aqui, como contexto do problema. Ela não abre o case. Isso apareceu na primeira versão desse case: ele abria justificando o que não estava sob meu controle, e a primeira coisa que o leitor via era eu tirando o meu da reta.

4. As decisões, não as atividades

"Fiz entrevistas, montei personas, desenhei fluxos" é lista de atividades; qualquer designer faria. Decisão é o que você escolheu, o que descartou e por quê. Em tópicos, curtos.

No exemplo:

  • Identidade como configuração. Estruturamos tudo como whitelabel. Quando a definição de marca chegasse, alguém do banco aplicaria pelo painel administrativo, sem novo ciclo de desenvolvimento. A decisão que estava fora do meu controle virou um parâmetro.
  • O diferenciado veio de olhar pra fora. O app do banco era referência de um padrão já estabelecido. Quem estava definindo o padrão seguinte eram os bancos digitais entrantes, com widgets, customização em tempo real e transições mais fluidas. A jornada continuou reconhecível; o comportamento passou a ser de outra geração de produto.
  • Tema por cartão. Propus que cada categoria de cartão tivesse sua identidade no app, o que transforma a cor em sinal entre portadores e cria incentivo pra subir de categoria. Ficou implementado, a critério do banco ativar.

Aqui também entram os desafios que fugiram do plano, porque nunca é o mundo ideal. E entram as telas. Se a vaga é de Product Designer, quem avalia vai olhar o visual, a experiência e os detalhes de interação. A diferença é que, depois dos blocos anteriores, cada tela aparece como prova de uma decisão, e não como galeria solta.

5. O resultado, com uma nota honesta

Resultado é dado, e de preferência dado que outra pessoa possa conferir. E nota honesta é dizer o que não foi resolvido, ou o que saiu do seu alcance.

No exemplo: o app foi lançado, passou de 100 mil downloads e ficou em operação até 2026, quando a parceria entre as duas marcas acabou no Brasil. A avaliação na loja hoje é 2,3. As reclamações se concentram em funções que viraram padrão de mercado depois do lançamento e na falta de integração com o app do banco, não na estrutura entregue. O meu contrato ia até a entrega, e eu não acompanhei a evolução depois. A lição que fica no case: produto premium não é o que se entrega no lançamento, é o que se mantém.

Esconder o 2,3 seria fácil. Contextualizar mostra que você entende produto além da entrega.

E se o seu escopo terminou antes da validação? Tudo bem. Não invente um escopo só pra ter o que mostrar. Mostre como você acompanharia, o que avaliaria e quais seriam os próximos passos.

Quem avalia lê com a vaga na cabeça

Uma coisa que fica clara quando você está do lado de quem contrata: a maioria dos portfólios chega muito parecida. Então quem avalia já abre cada um sabendo o que precisa que aquela pessoa faça no time, e procura isso.

Ilustração: o veterano, diante de um quebra-cabeça de um time com uma peça faltando, compara dois portfólios com o formato da peça na capa
A peça que falta

Se a vaga pede mais força no delivery, o olhar vai pra execução. A pessoa entende de design system, de design atômico, de como montar a componentização? Como fica o resultado final? Tem equilíbrio de paleta, entende de psicologia das cores, de hierarquia da informação e tipográfica, de espaçamento, das heurísticas de design?

Se a vaga é de alguém que vai ajudar mais em pesquisa, workshop e discovery, na parte que antecede a estratégia, o olhar vai pro raciocínio. E aí os desafios que fogem da alçada do design ganham peso: o deadline curto demais, a informação que você não conseguiu acessar, a mudança repentina no meio do projeto. Quem avalia quer entender como você se virou. É ali que aparecem, juntos, o hard skill e o soft skill, e é isso que dá personalidade a um case no meio de tantos parecidos.

Na prática, vale olhar a vaga antes de mandar o portfólio e se perguntar qual dos seus cases responde melhor ao que ela pede.

Versão curta, versão longa

Só tem um cuidado: o case não pode virar a história da sua vida. Quem avalia precisa bater o olho e entender rápido o que você fez.

Ilustração: o designer, à mesa, segura um cartão-postal numa mão e um livro grosso cheio de marcadores na outra, pesando os dois
Curta e longa

Por isso funciona ter uma versão resumida, que deixa bem claros os pontos que interessam: como você se vira no inesperado, o que você sabe de pesquisa e indicadores, como fez a proposta de valor ser validada e como ficou a entrega de design. Os detalhes maiores ficam disponíveis pra quem tiver curiosidade, numa versão estendida ou na conversa da entrevista.

Escreva antes de diagramar

O erro mais comum é abrir o Figma e começar pelo layout do case. Escreve primeiro, em texto corrido, como se fosse explicar o projeto pra alguém numa conversa. O gargalo de um bom case quase nunca é o visual; é conseguir dizer em poucas linhas o que estava em jogo e o que você decidiu. Quando o texto está de pé, a diagramação fica fácil.

Onde essa estrutura tem limite

Tem uma ironia aqui. No texto anterior eu disse que quem avalia pergunta se você seguiu um template ou se entende de verdade cada etapa. E agora estou te dando uma estrutura.

A diferença é o que vai dentro. Os cinco blocos são um esqueleto pra organizar o raciocínio, e não um formulário pra preencher. Se o bloco 3 não tiver uma descoberta de verdade, ou se o bloco 4 for só a lista de atividades com outro nome, quem avalia percebe na hora. Nenhuma estrutura cria pensamento onde ele não existiu.

A pergunta que fica

Tem um problema que muita gente vai ter ao aplicar isso: e quando o seu melhor case é confidencial? Como mostrar raciocínio sem expor o cliente? Esse vale um texto próprio.

Enquanto isso, pega o case mais forte do seu portfólio e escreve só o bloco 3, em três frases: o que você descobriu que o pedido não dizia. Se não sair, esse case ainda não está mostrando o seu pensamento.

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