Devaneios Concretos · Ensaio
Seu portfólio mostra telas ou pensamento?
Quando eu coordenava o time de design numa software house, várias vezes precisei contratar, principalmente pra vagas de pleno e de júnior.

Quando eu coordenava o time de design numa software house, várias vezes precisei contratar, principalmente pra vagas de pleno e de júnior. Os profissionais ficariam alocados em projetos de clientes da empresa, ou de clientes que estavam pra chegar.
Era só eu postar a vaga no LinkedIn que começava a aparecer um tipo de candidato bem específico: a pessoa sem portfólio. Ela se apoiava no currículo e, principalmente, na conversa. Às vezes vinha pelo lado emocional: não teve oportunidade de construir cases, mas era esforçada, trabalhadora, só precisava de uma chance.
A minha posição sobre isso, depois de estar desse lado da mesa: quem avalia não está muito preocupado se o seu case foi grande ou pequeno, nem com a importância do projeto. Quer ver o seu raciocínio numa entrega. Como você toma decisão, que qualidade você consegue entregar no fim de um ciclo, se você se preocupa com indicador, se conversa com as pessoas certas pra levantar os dados que vão dizer se aquilo deu certo. Sem portfólio, nada disso aparece. Sobra a lábia.
Por que a lábia não convence
Quem já lidera equipe já caiu nessa algumas vezes: confiou num papo bom e, no fim, a pessoa não entregou o que se esperava. Então, numa vaga que pede experiência, numa empresa séria, com alguém que entende de design avaliando, a conversa sozinha não passa. Não faz sentido avançar com você, e não adianta implorar por uma oportunidade.

A exceção são os programas pensados pra isso, como o de jovem aprendiz. Ali a empresa quer justamente alguém disposto a se dedicar e crescer lá dentro. Fora desse tipo de programa, o portfólio é a sua prova.
O sênior com portfólio de júnior
Tem um outro caso que pesa ainda mais: o da incoerência entre o discurso e o portfólio. A pessoa vem de uma área vizinha, design gráfico, produto físico, marketing, e acha que, pela idade e pelo tempo de estrada, já pode ocupar uma posição sênior. Quanto mais alta a vaga, mais o portfólio pesa sobre você.
Teve uma pessoa que estava forçando a barra pra uma vaga sênior. Olhei o currículo e achei ok: tinha experiência e o tempo necessário pra formar o pensamento crítico de um sênior. Quando abri o portfólio, era muito fraco. E era um projeto em que eu não ia poder ficar passando a mão; a pessoa teria que ter autonomia e entregar algo bem bacana no final.
Ela insistia em bater um papo comigo. Então eu fiz um teste. Mandei três portfólios e pedi pra ela me dizer se estavam melhores ou piores que o dela. Ela analisou e respondeu: "Puxa, esse pessoal está bem à frente de mim." Aí eu contei que aqueles portfólios eram de candidatos a uma vaga júnior. Ela mesma tinha acabado de dizer que, se apresentando como sênior, estava com um portfólio mais fraco que o de quem estava começando.
Foi um chacoalhão, e eu ofereci o que dava pra oferecer: uma conversa pra analisar o portfólio dela e apontar o que melhorar, porque ninguém é perfeito. Mas a entrega que se espera de um sênior, que vai lidar com cliente e precisa encantar com o que entrega, não ia rolar. Faltava o fator wow.
Eu fiz o caminho contrário
Essa história me lembra de quando eu fiz o oposto. Anos antes, eu era sênior em outra software house, praticamente liderando o pessoal de design e alguns programadores mais júnior. Revisava telas, conferia se estava tudo funcionando, fazia até papel de QA. A cobrança ali era de delivery, de design em si, e quase não sobrava tempo pra entender o problema de verdade. Eu sabia que podia entregar mais, principalmente em pesquisa, e estava numa zona de conforto.

Aí apareceu uma vaga numa instituição financeira grande, onde discovery era cobrado de verdade. Na conversa, ainda não estava definido se era pra pleno ou sênior. Na hora da contratação, a liderança me avisou: a vaga é de pleno, tudo bem pra você?
Eu aceitei. Nunca tinha trabalhado numa empresa grande, e quis descobrir quais eram as cobranças reais e se eu dava conta delas como sênior. Comecei sem medo, porque o que me cobravam no início não era pesado. Com o tempo, as pessoas foram vendo como eu me virava no inesperado, como me comunicava, como lidava com o lado humano de quem estava no projeto. E começou o comentário: esse cara não é pleno, é sênior. Logo fui indicado pra reconhecimentos, que não cheguei a ganhar, e tive boas avaliações no PDI.
Dar um passo pra trás no título me abriu vários pra frente. O cargo no papel importa menos do que aquilo que você consegue mostrar quando tem a chance.
O que quem avalia procura
Voltando ao portfólio, tem uma coisa que muita gente não percebe: o que se avalia depende da maturidade de design da empresa. Quanto menos madura ela é, mais fácil entrar com um case só, ou mostrando só pesquisa. Tem quem coloque o duplo diamante passo a passo, de forma acadêmica, e consiga a vaga.
Numa empresa mais madura, quem avalia vai perguntar outra coisa: você seguiu um template, ou entende de verdade cada etapa? Como você conduziu, que informações levantou, o que te fez ir pra um lado e não pro outro? Quais eram os desafios reais, sabendo que nunca é o mundo ideal e que sempre aparece algo que foge da jornada?
E no final, a entrega. Se a vaga é de Product Designer, e não de pesquisa, a pessoa precisa fazer design: vai ser avaliado o visual, a experiência, os detalhes de microinteração e de motion, que hoje dá pra agregar com IA.
Por último, os dados. Quais eram os objetivos e os indicadores que iam dizer se a entrega deu certo? Você chegou a validar, ou o escopo terminou antes disso? Se terminou, tudo bem; não faz sentido inventar um escopo só pra ter o que falar. Mas dá pra mostrar como você acompanharia, o que avaliaria e quais seriam os próximos passos. No fundo, quem avalia quer saber se você vai trazer os argumentos certos, encontrar as dores reais e entregar algo relevante pros clientes da empresa.
Sem cliente não é sem portfólio
Se você não tem portfólio porque ninguém te deu oportunidade, dá pra criar a oportunidade. Hoje existem eventos que ajudam quem está começando a montar um primeiro projeto, e concursos em que você parte de um brief externo. Acho isso ótimo até como aprendizado. Eu mesmo, na faculdade, participei de concursos internos de desenvolvimento de produto, e foram eles que me ajudaram a construir o meu primeiro portfólio.
Outro caminho é criar o próprio desafio. Eu faço isso até hoje. No meu site tem uma aba chamada Labs: quando não existe um projeto ou um cliente pra aquilo que eu quero aprender, eu vou lá e desenvolvo. Mesmo sênior, mesmo tendo entrado como especialista ou coordenador em vários projetos, é ali que eu testo o que estou aprendendo de IA, ou algo que foge um pouco do digital.
E às vezes dá pra negociar o aprendizado com um cliente de verdade. Teve uma época em que eu queria muito fazer um e-commerce em WordPress. Eu sabia construir e-commerce, mas não nessa plataforma, e queria descobrir se ela entregava uma boa loja. Quando apareceu um cliente querendo exatamente isso, eu não cobrei o que cobraria se já tivesse todo o know-how, porque eu queria aquele case. Em troca, eles me deram a chance de errar: se em algum momento não desse, eles pegariam o que eu tinha avançado e buscariam outra pessoa pra terminar. No fim, entregamos a loja, e foi um teste muito positivo pra mim.
Se eu fosse júnior e não tivesse portfólio, esse seria o meu caminho pros primeiros trabalhos.
Um case bom vale mais que dez medianos
Quem avalia descarta portfólio rápido. Por isso é melhor ter um case muito bom, que deixe o entrevistador de cabeça explodida, do que dez mais ou menos que nunca chegam numa solução bacana. Um case que mostra como você pensou, decidiu e entregou fala mais que uma galeria de telas.

A pergunta que fica
Se o case é o que importa, como montar um que mostre raciocínio sem virar relatório acadêmico? Esse é o próximo texto.
Enquanto isso, abre o seu portfólio agora e escolhe o case mais forte. Ele mostra por que você decidiu o que decidiu, ou só mostra o que você desenhou?
Conversa
Comentários
Carregando…
Leia também
Mais sobre Carreira.
- CarreiraEnsaio
A empresa imperfeita é arena, não sala de espera
- CarreiraEnsaio
Quando o plano cai, proponha o próximo
- CarreiraEnsaio
Como a IA está mudando as vagas de Product Design


