Devaneios Concretos · Guia
Taxonomia de prompts
A maioria das pessoas conversa com a IA do jeito que manda áudio pro amigo: vai jogando frase atrás de frase até a coisa fazer sentido. Não tem nada de errado nisso. O erro é achar que é sempre assim que funciona.

A maioria das pessoas conversa com a IA do jeito que manda áudio pro amigo: vai jogando frase atrás de frase até a coisa fazer sentido. Não tem nada de errado nisso. O erro é achar que é sempre assim que funciona.
A minha posição: existem dois modos de conversar com a IA, o exploratório, em que você conversa, e o estruturado, em que você direciona. Os dois são legítimos. O que separa quem usa IA de quem sabe usar é reconhecer em qual momento você está e trocar de modo na hora certa.
Esses dois modos são a forma da conversa. Em outro texto, sobre o que sobra quando a IA consegue fazer as telas, eu falo de um segundo eixo: o papel que você pede pra ela (especialista, parceiro de ideias, persona que avalia, analista, executor ou decisor). A forma da conversa vale pra qualquer um desses papéis, e é dela que este texto trata.
Explorar é iterar
Quando comecei a construir o meu site pessoal, eu não tinha a estrutura na cabeça. Sabia mais ou menos o que queria que a pessoa sentisse. Então cheguei na IA com algo solto: quero um site que faça a pessoa entender quem eu sou, ver as empresas por onde passei e alguns cases de como eu resolvo problemas. A IA trouxe uma ideia, eu ajustei; trouxe outra, eu refinei. Nessa troca, as seções do site foram aparecendo.

Ali eu não estava fazendo prompt errado. Eu estava explorando, usando a IA pra pensar junto.
Pra quem é de design, isso tem nome: iteração. E iterar é diferente de interagir. Interação é conversar sem um propósito claro. Iterar é explorar um assunto, aprofundar a cada rodada, com um objetivo real de onde você quer chegar. O modo exploratório com a IA é exatamente a fase de iteração que a gente faz no dia a dia do design thinking. Então, quando alguém diz que você "tem que" usar framework e prompt estruturado sempre, dá pra responder com tranquilidade: tudo bem explorar. Só dá pra evoluir a partir daí.
Quando a conversa vira desperdício
Tem um outro momento: quando você já sabe exatamente onde quer chegar. Aí ficar refinando de pouquinho em pouquinho vira desperdício do seu tempo, e de token.

No meu uso, isso acontece muito no meio de um projeto. Eu chego com uma pesquisa que acabei de fazer e entro no modo exploração. Conforme fico com mais clareza do assunto, migro pro modo estruturado pra ter respostas mais assertivas. Um exemplo: num discovery que fiz pra uma grande distribuidora de combustível. Discovery é exploratório por natureza, e a conversa com a IA ajudou muito no começo. Mas, depois de agrupar as entrevistas, quando eu quis extrair dados específicos delas pra sustentar a apresentação, conversa já não bastava. Eu precisava de estrutura.
Por que a estrutura funciona
Antes das camadas, vale entender o mecanismo, porque quem entende o porquê nunca mais escreve prompt no escuro.
Um modelo de IA responde prevendo a continuação mais provável a partir do que você deu pra ele. Quando o prompt é vago, existe um número enorme de respostas plausíveis, e a mais provável dentro desse espaço gigante é, por definição, a mais média. Aquela resposta que serve pra qualquer pessoa e por isso não serve direito pra ninguém. A IA não está com preguiça; sem direção, a aposta mais segura dela é a resposta mais central.
Toda informação que você acrescenta corta um pedaço das respostas possíveis. Quando o espaço fica estreito o bastante, a resposta mais provável deixa de ser a genérica e passa a ser a que encaixa no que você pediu. Você não está dando mais energia pra IA. Está tirando da frente as respostas que você não queria.
As seis camadas
Voltando ao site, pra seção de cases. Esta é a ordem que eu uso, com o objetivo primeiro porque ele organiza o resto:
- Objetivo. O que eu quero que aconteça de verdade. A tarefa é "fazer a seção de cases"; o objetivo é que o visitante entenda como eu resolvo problemas e queira me chamar. Só isso já corta as respostas que tratam a seção como um portfólio bonitinho e morto.
- Contexto. Quem eu sou, o que eu ofereço, pra quem é o site. Sem isso, a IA escreve pra um designer genérico. Com isso, escreve pro meu posicionamento e pro meu tipo de cliente.
- Tarefa. Só agora a ação concreta: estruturar a seção e me dar três versões de abertura, por exemplo. Depois do objetivo e do contexto, a tarefa já nasce direcionada.
- Restrição. Tom, tamanho, o que evitar. No meu caso: sem jargão, sem promessa exagerada, linguagem direta. É aqui que a maioria esquece e perde qualidade. Cada restrição é um corte preciso no espaço de respostas.
- Exemplo. Em vez de descrever no vácuo o tom que eu quero, mostro uma referência. O exemplo ancora a IA num ponto concreto, em vez de deixar ela adivinhar o que eu quis dizer com "moderno" ou "elegante", que pra cada pessoa é uma coisa.
- Critério de qualidade. Como a IA sabe que acertou. Pra mim, uma boa resposta mostra, em cada case, o problema, o que eu fiz e o resultado. Quando eu dou o critério, entrego a régua que a própria IA vai usar pra se avaliar. Quase ninguém usa essa camada, e é a que mais muda o resultado.
No fim, saímos de um prompt vago, que daria a resposta genérica de sempre, e fomos cortando até sobrar a resposta que eu queria. A IA não trabalhou mais. Trabalhou no lugar certo.
Os frameworks são os mesmos blocos
Você provavelmente já viu um monte de sigla por aí: RTF, COSTAR, RACE, CRISPE. Cada uma se vende como o jeito certo de escrever prompt. Na prática, são os mesmos blocos que a gente acabou de ver, organizados e nomeados de outro jeito, pra públicos diferentes.
Não existe um framework certo. O que muda de verdade é o peso de cada bloco conforme o propósito. Numa escrita criativa, o peso vai pro tom e pra audiência. Numa análise, vai pro objetivo e pro critério de qualidade. Em programação, vai pras restrições e pros casos de borda. Entender os blocos e dosar o peso vale mais que decorar dez siglas.
A régua
Quando o destino ainda está se formando, conversa: modo exploratório. Quando o destino já está claro, direciona: modo estruturado. Um não é melhor que o outro. O que importa é saber qual usar em cada momento, e perceber a hora de trocar.

Como eu migrei do texto pra voz
Vou terminar com uma coisa pessoal, porque ela amarra tudo. Eu sempre fui do texto. Pensava a ideia inteira na cabeça, reformulava várias vezes e só então digitava. Escrever era o meu jeito de pensar.
Com a IA, comecei a usar muito, e veio um cansaço físico de tanto digitar prompt longo. Pra ganhar velocidade, encurtei o que escrevia. As respostas pioraram, exatamente pelo que este texto explica: prompt curto, espaço de resposta enorme, resposta genérica.
Pra resolver isso sem acabar com as minhas mãos, fui pro microfone, contra o meu próprio instinto. No começo foi difícil, porque eu não tinha o hábito de construir a ideia enquanto falava. Virou exercício, e hoje improviso falando muito melhor do que imaginava.
E é a mesma tensão do começo. Digitar era o meu modo estruturado: eu formatava tudo antes de soltar. Falar me jogou no exploratório, construindo a ideia enquanto ela sai.
Sendo honesto: não tem mágica na voz. O modelo recebe só o texto transcrito. O ganho é que, falando, eu me solto e produzo um prompt muito mais rico, e é esse texto melhor que melhora a resposta. Se você pensa melhor escrevendo, continua escrevendo.
Onde isso tem limite
Nenhuma camada salva um objetivo confuso. Se você não sabe o que quer, a estrutura só organiza a confusão. Por isso a ordem importa: primeiro explorar até ter clareza, depois estruturar.
A pergunta que fica
Quando você percebe que está montando o mesmo tipo de prompt toda semana, dá pra parar de repetir: deixar esse comportamento configurado, como num GPT customizado, pra IA já saber como agir com você. É o modo estruturado levado até o fim. Como fazer isso no Claude e no ChatGPT é o próximo passo dessa série.
Enquanto isso, me conta: você é mais do modo exploratório ou do estruturado? E já percebeu a hora em que precisava trocar?
Conversa
Comentários
Carregando…
Leia também


