Devaneios Concretos · Ensaio

A IA vai acabar com o Product Designer? O passado responde metade

Ele levantava uma folha transparente. Abaixava. Levantava de novo. Se a cor saísse dois milímetros do lugar, era refazer tudo.

Ilustração: o veterano levanta contra a luz uma folha transparente de separação de cor, numa mesa de luz cheia de acetatos, enquanto o designer trabalha num computador retrofuturista ao fundo
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Ele levantava uma folha transparente. Abaixava. Levantava de novo. Se a cor saísse dois milímetros do lugar, era refazer tudo.

Esse era o diretor de uma fábrica de embalagens onde eu trabalhei. Ele tinha vindo de agência, e de vez em quando parava atrás da gente, olhava o Photoshop aberto e sorria: "Vocês não sabem o que era isso." Aí vinha o gesto da folha, uma para cada cor, e toda história terminava no cheiro de tinta. Ele fechava os olhos por meio segundo. "Vocês têm vida fácil."

Hoje eu me pego no lugar dele, me perguntando o que da minha rotina vai virar história de fim de tarde. Não é a caneta. É o nosso jeito de sentar com o usuário e entender o que ele nem sabia dizer. Será que isso também vai acabar?

Minha resposta curta, logo de cara: acho que o cargo de Product Designer continua, com menos vagas por time. E o que protege a gente hoje é aposta, não garantia.

Pra chegar nisso, vou passar por três perguntas: o que o passado já respondeu, por que dessa vez pode ser diferente e o que fazer com isso. No caminho, vou separar o que eu vivi, o que eu li e o que é aposta minha. Pega papel, porque no meio do texto tem um teste.

O que o passado já respondeu

Isso eu li, não vivi. Quando o computador entrou nos estúdios, quem montava layout colando peça numa prancha perdeu a função, e uma geração de tipógrafos ficou obsoleta. O documentário Graphic Means conta bem essa transição. O designer ficou.

Ilustração: o veterano, mais novo, cola tiras de texto numa prancha de paste-up e olha, desconfiado, dois carregadores trazendo um computador num carrinho
A prancha

Repara no que sumiu. Colar a peça no lugar era uma tarefa que dava pra descrever inteira: coloca isso aqui, nesse tamanho, nessa posição. Já decidir o que colar, e por quê, ninguém sabia descrever assim. Isso ficou.

Da última vez, sumiu a etapa do meio, a que dava pra descrever inteira.

Agora escreve aí uma etapa do seu trabalho que dá pra descrever do começo ao fim. Só uma. A gente volta nela.

A esteira que a gente montou

O Ford conta, no livro dele, que a ideia da linha de montagem veio, de modo geral, do trole aéreo dos frigoríficos de Chicago. Antes, montar um chassi levava 12 horas e meia; depois, saía um a cada 93 minutos, segundo o museu The Henry Ford. Ninguém precisava ser o mestre que fazia o carro inteiro. Bastava dominar uma estação.

Ilustração: uma linha de montagem de telas, com o designer desenhando a ideia na primeira estação, braços robóticos sozinhos na do meio e o técnico conferindo o resultado na última
A esteira

Isso eu vivi: a gente fez o mesmo com o design. Pesquisa, texto, UX, UI, cada um na sua estação. E o designer que fazia tudo começou a parecer artesão de oficina de carro antigo, excelente num nicho pequeno.

Só que tem um efeito colateral. Quando você quebra um trabalho em estações, cada estação ganha entrada e saída bem definidas. E é exatamente esse formato que os agentes, as IAs que executam tarefas sozinhas, sabem ocupar. A aposta minha é que a esteira que a gente montou pra facilitar a vida das pessoas facilitou também a vida das máquinas.

Aí a conta vira. O agente enxerga a estação; quem enxerga a linha inteira e sabe conduzir passa a valer mais. O artesão de nicho virou quem conduz a linha.

O que os dados mostram até agora

Isso eu li. Quase tudo que se sabe vem de plataformas de freelancer e de dados dos Estados Unidos e da Europa:

  • os pedidos de trabalho de criação de imagem caíram 17% depois dos geradores de imagem, numa grande plataforma (Demirci, Hannane e Zhu);
  • a queda foi mais forte nos trabalhos curtos, de uma a três semanas (Teutloff e outros);
  • há indício de que até os freelancers mais bem avaliados foram afetados (Hui, Reshef e Zhou);
  • com dados de todos os trabalhadores da Finlândia, nos dois primeiros anos depois do ChatGPT, não apareceu mudança grande (estudo).

Do Brasil, até onde procurei, não achei nada parecido.

O que isso diz? Que existe pressão real nos trabalhos curtos, que costumam ser os mais fáceis de descrever inteiros. E que não existe colapso geral provado. Ninguém sabe ainda. Quem te vender certeza, pro lado bom ou pro ruim, tá vendendo alguma coisa.

Onde o passado para de responder

O passado respondeu a primeira metade: o designer fica, sai a etapa do meio. A outra metade é saber se essa etapa do meio pode crescer.

Tem uma história do xadrez que ajuda. Em 1998, um ano depois de perder pro computador, o Kasparov propôs jogar em dupla com a máquina, e por umas duas décadas essa dupla foi a combinação mais forte. Muita gente conta que depois as máquinas ficaram tão boas que o humano parou de ajudar. Esse final é discutido, mas o recado tá dado.

E o ritmo assusta. O tamanho das tarefas que essas IAs completam sozinhas vem dobrando a cada poucos meses. Isso é medido em programação, então não dá pra transportar direto pro design. Mas dá pra levar a sério.

Uma ideia antiga ajuda a organizar. Em 2003, três economistas, Autor, Levy e Murnane, argumentaram que o computador assume o que dá pra escrever como regra e complementa o trabalho de resolver problema novo e de conversar com gente. Os próprios autores avisaram que isso valia no presente. A IA mexe nessa fronteira, porque aprende com exemplos coisas que a gente nunca soube explicar.

Daí sai o teste, e ele é aposta minha: dá pra descrever essa tarefa inteira num pedido, sem perder nada? Se dá, ela tende a virar automática. Se não dá, é onde o seu repertório trabalha. Repertório é tudo que você já viu, viveu e sabe conectar.

Pensa na pesquisa com usuário. Já dá pra simular uma pessoa a partir de entrevistas, e os testes são mistos: a simulação acerta o padrão do grupo, mas a dúvida é se acerta a pessoa de verdade. E pesquisa é justamente a parte em que você ainda não sabe o que perguntar. Não dá pra descrever num pedido o que você ainda não sabe. Um simulador descobre o que ninguém sabia que precisava perguntar? Eu não sei.

Agora volta na etapa que você escreveu lá em cima. Ela passa no teste?

Pra onde isso vai

Eu vejo três caminhos. No realista, que é a minha aposta, os cargos continuam com menos vagas por time e mais gente disputando. No otimista, fazer fica tão barato que surgem mais empresas e mais produtos, e com eles mais trabalho de design; já aconteceu com o caixa eletrônico, menos caixas por agência e mais agências, mas o próprio David Autor avisa que isso não vale como regra. No pessimista, boa parte do trabalho deixa de precisar de gente.

Ilustração: o designer, de mochila e mapa na mão, numa encruzilhada ao entardecer, com um caminho para uma cidade pequena, outro para uma cidade que cresce e outro que some na neblina
Três caminhos

Nos três, a pergunta é a mesma: o que você faz enquanto a fronteira anda?

O que eu faria com isso

Mostre decisão, não tela. A etapa que passou no teste é a que menos te diferencia, então não é ela que você mostra. Pega um projeto onde você decidiu algo que ninguém tinha descrito e escreve o que escolheu, o que descartou e por quê.

Guarde a correção. Toda vez que a IA te entregar algo que parece errado, anota o que ela propôs, o que você viu de errado e como você validou. Num outro projeto que eu tô construindo, a IA entrega bem a parte racional, mas o que faz a pessoa se sentir parte de um time ela não decide sozinha. Esse registro vale mais que muita tela de portfólio.

Tenha algo seu, mesmo pequeno. Eu tô fazendo isso e não sei se vai dar certo. Mas, se as vagas ficarem mais disputadas, prefiro ter uma porta que eu mesmo abro.

A metade que falta

O diretor achava que a facilidade do Photoshop tinha tirado o mérito do ofício. Eu acho o contrário: quando executar fica fácil, sobra decidir. Só que decidir também é o que a IA está aprendendo, então ficar parado não é opção.

O passado respondeu metade. A outra metade a gente vai descobrindo, e eu vou contando aqui. Da próxima vez que você ler que a IA vai acabar com alguma coisa, faz o teste: dá pra descrever inteiro?

Me conta nos comentários qual etapa do seu trabalho passou no teste e qual não passou. E fica a pergunta que eu quero investigar no próximo texto: se a IA consegue fazer as telas, o que sobra pro designer?

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