Laboratório · IA · 2026
Geração procedural
Como os games montam mundos a partir de regras, aplicado à operação de uma empresa.
Ato I · A ideia
O essencial
A próxima fase da Vantiz é montar a operação de cada empresa a partir de peças, em vez de construir um módulo para cada setor. É a lógica da geração procedural dos games, aplicada à gestão.
Este estudo conta a ideia, onde fica a regra, onde entra a IA e onde entra a pessoa. E separa o que já roda do que ainda é plano: a arquitetura está na fase 1 de um caminho de seis.
Comercial, produção e serviço viram configurações das mesmas peças.
Prazo vencido é cálculo. Risco de atraso é inferência.
A operação montada passa por prévia e revisão antes de valer.
- 01BlocoA estrutura básica da operação
- Entidade
- Campo
- Relação
- Estado
- Evento
- Ação
- 02ComportamentoDá uma capacidade ao bloco
- Prazo
- Responsável
- Checklist
- Aprovação
- Dependência
- 03VisãoMostra e mexe nos dados, sem guardar regra
- Kanban
- Calendário
- Linha do tempo
- Formulário
De onde veio a ideia
Nos games, a geração procedural cria fases, mapas, itens e até missões a partir de regras e algoritmos, com ou sem a mão de uma pessoa no processo. O mundo nasce de um conjunto pequeno de regras que se combinam, sem ninguém desenhar peça por peça.
Eu penso em peças desde sempre. Monto Lego desde criança, e o cubo mágico é um quebra-cabeça de peças que só se movem por regras. Na faculdade, a Linha Tube, a linha de móveis que entrou no livro “10 Jovens Designers Brasileiros”, também era modular: peças de MDF cortadas em CNC, tubos de alumínio e barras roscadas que se combinavam de jeitos diferentes.
Esse olhar de peças e de game design já aparece em outras partes do meu trabalho, do Teste às cegas à tela Início da Vantiz. Aqui a pergunta foi outra: e se a operação de uma empresa também pudesse nascer de poucas regras bem escolhidas?
Isso já roda em software
Fora dos games, a ideia já roda há tempo, com o nome menos charmoso de configuração por metadados. O Salesforce monta a aplicação de cada cliente na hora, lendo a descrição dos objetos, dos campos e das regras, sem código feito sob medida para cada um. E gerar a interface a partir de um esquema de dados é tema de pesquisa acadêmica faz anos.
O que muda na Vantiz é quem descreve a operação. Em vez de um consultor configurando campo por campo, a pessoa conta como trabalha, e a plataforma propõe a estrutura.
O que já se repete
Antes de virar arquitetura, a ideia já aparece no produto, porque o processo foi pensado assim desde o começo. A plataforma nasce sobre um design system atômico: componentes e modais são construídos para ser replicados, e tudo o que é criado passa por um estudo para ver se dá para reaproveitar, e fica guardado. A decisão de reuso acontece já na criação.
O kanban é o melhor exemplo. É o mesmo nos projetos e na prospecção, e o que muda é a configuração: a quantidade de colunas, o nome de cada uma e os campos dos cards, de acordo com o que cada fluxo precisa.
| A peça | Onde ela já serve |
|---|---|
| Kanban | Projetos e prospecção, com as colunas e os cards de cada um |
| Checklist sugerido pela IA | O lead e a task |
| Plano do dia | Tarefas, leads e clientes |
Ato II · As peças
Blocos, comportamentos e visões
São três tipos de peça. O bloco é a estrutura básica. O comportamento dá uma capacidade ao bloco, como ter prazo ou pedir aprovação. E a visão mostra e mexe nos dados.
Pensa no Lego. Com o mesmo encaixe, um punhado de peças monta uma casa, uma nave ou um castelo. O bloco é a peça básica; o comportamento é a peça especial, como a roda ou a dobradiça; e a visão é o que a pessoa enxerga montado. O encaixe é o contrato: enquanto ele é o mesmo, qualquer peça conversa com qualquer outra.
O mesmo kanban pode mostrar tarefas, oportunidades, candidatos ou ordens de serviço: ele só precisa que a peça tenha estados. A visão não guarda regra. Quem garante a regra é o motor, e a tela só pede.
| Peça | O que faz | Exemplos |
|---|---|---|
| Bloco | A estrutura básica da operação | Entidade, Campo, Relação, Estado, Evento, Ação |
| Comportamento | Dá uma capacidade ao bloco | Prazo, Responsável, Checklist, Aprovação, Dependência |
| Visão | Mostra e mexe nos dados, sem guardar regra | Kanban, Calendário, Linha do tempo, Formulário |
Fato e inferência
Um prazo registrado é fato. Prazo vencido é cálculo, e fica no código. Risco de atraso é inferência, e aí entra a IA, guardando a fonte, o momento e a versão do estado que ela leu.
Uma inferência nunca ocupa o lugar do fato de origem. Foi o mesmo raciocínio que tirou a próxima ação da IA na Vantiz: quando os parâmetros são conhecidos, a decisão vira regra, com pesos, e não gasta crédito.
O que a IA lê e o que ela aprende
Para julgar bem, a IA precisa ler o contexto certo. O RAG, que busca trechos de documentos para dar contexto ao modelo, fica como infraestrutura por baixo do produto. A memória de cada projeto e de cada lead foi desenhada em três camadas, e a busca semântica é a última a ser usada. Cada trecho lido carrega a origem, a data e quem pode ver.
O fine-tuning, treinar o modelo com os dados da casa, ficou como hipótese. Desde setembro, a Vantiz guarda o elo entre o que a IA gerou e a versão que a pessoa deixou como final, porque esse sinal não se reconstrói depois. Mas treinar só volta a ser analisado quando houver pelo menos 500 pares por agente, de 15 empresas diferentes e com consentimento, e quando mexer no prompt já não melhorar mais nada.
E tem uma pergunta antes: a edição da pessoa é um padrão ou é o gosto de cada estúdio? Se for gosto, a resposta certa é template e memória da casa, e aí o procedural resolve melhor que treinar um modelo.
| Camada | O que guarda | Como a IA lê |
|---|---|---|
| 1. Números e estado | Prazos, horas, valores e status | Consulta direta ao banco, sem interpretar texto |
| 2. Resumo vivo | O que importa do projeto ou do lead até aqui | Atualizado a cada marco |
| 3. Material bruto | Documentos, conversas e arquivos recebidos | Busca semântica (RAG), só se as duas primeiras não bastarem |
- pares por agente, entre o que a IA gerou e a versão final, antes de pensar em treinar
- 500
- empresas diferentes nesses pares, todas com consentimento
- 15
- por documento gerado, a mediana medida em agosto: barato demais para um modelo próprio compensar
- US$ 0,038
Fonte: Critérios da Vantiz para reavaliar o fine-tuning, setembro de 2026
O ciclo de uma mudança
Cada mudança na operação vira um evento, e o evento escolhe o que vale reavaliar. O sistema não analisa tudo a cada clique: o cálculo vem primeiro, o julgamento da IA só quando é útil, e a próxima ação passa por quem decide antes de virar resultado.
- 01Evento
- 02Sinal
- 03Julgamento, quando útil
- 04Próxima ação
- 05Aprovação
- 06Resultado
O agente procedural
O agente procedural é o fim do caminho, e ele começa antes de a pessoa entrar na plataforma. Ela responde algumas perguntas iniciais. Se tiver pressa, pula e escolhe uma configuração pronta, um template. Se quiser, detalha numa conversa com a TRAMA o que a empresa faz e como são os processos dela.
Com isso, a TRAMA chama quem for preciso do time: o LASTRO para pesquisar o mercado, a ESCUTA para entender o público, o PRUMO para montar o plano. Eles sugerem, a pessoa ajusta, e a conversa itera até chegar num plano que dá para gerar. O procedural chega também aos agentes: a configuração de cada um sai do que a empresa contou.
Por baixo, a proposta vira um schema, a descrição da operação num formato que o sistema entende, com prévia e com as diferenças legíveis. Nada vai ao ar sem revisão, e o agente não mexe sozinho num fluxo que já está rodando. A primeira prova nem usa o agente: o schema é escrito à mão, e a geração automática só vem depois que o motor estiver provado.
E não precisa de um modelo próprio. A geração usa um modelo de mercado, escolhido por teste comparativo, dentro de um contrato que o código valida: a qualidade vem das peças, dos templates e dos exemplos, e o modelo pode ser trocado quando surgir um melhor. Como montar uma operação acontece pouco, dá para usar um modelo mais forte nessa etapa. E, com parceiros que descrevem processos internos, a escolha do provedor passa a ser também uma questão de LGPD e de contrato.
- 01Perguntas iniciais
- 02Template ou conversa com a TRAMA
- 03O time entra: LASTRO, ESCUTA, PRUMO
- 04A proposta, com prévia
- 05A pessoa ajusta
- 06O plano gerado
Ato III · O caminho
Em fases
A ordem importa mais que as datas: primeiro o schema, depois o motor, o reuso, a decisão e, por último, a geração. Hoje a Vantiz está na fase 1, montando o núcleo mínimo que reconstrói uma parte do que já existe.
| Fase | O que é | O que precisa provar |
|---|---|---|
| 0 | Inventário | Uma fatia real do produto escolhida, com o que precisa continuar funcionando |
| 1 · agora | Núcleo mínimo | Schema versionado, blocos, comportamentos e visões reconstruindo uma parte da Vantiz |
| 2 | Eventos e procedimentos | O fluxo governado por código e schema, com auditoria |
| 3 | Reuso | Três operações diferentes com as mesmas peças |
| 4 | Decisão | Skills com contrato próprio, primeiro em regra e depois com IA |
| 5 | Agente procedural | Uma operação nova montada a partir da descrição, sem código específico |
A prova de que é horizontal
Antes de abrir para alguém de fora, a gente constrói tudo o que der de componentes e de módulos para o nicho inicial, as agências e os estúdios criativos. É ali que as peças nascem e são testadas no uso real.
A primeira construção procedural é para a gente mesmo usar. Em parceria com empresas de outras áreas, como um escritório de advocacia e uma empresa de investimento, montamos a operação delas com as mesmas peças para ver duas coisas: se a criação fica mais rápida e se o que sai funciona direito. Só em fases mais adiante a geração fica aberta para qualquer pessoa.
Toda peça nova que aparecer no caminho fica registrada, com o motivo. Se cada área pedir um módulo inteiro só dela, a abstração está errada, e é melhor descobrir isso cedo.
| Quem | Para quê |
|---|---|
| Agências e estúdios | O nicho inicial, onde as peças nascem e são testadas no uso real |
| A própria Vantiz | A primeira construção procedural, usada pela gente |
| Parceiros de outras áreas | Advocacia e investimento: ver se a criação acelera e se funciona direito |
| Qualquer pessoa | Só em fases mais adiante |
O que ainda falta resolver
Não vou fingir que está tudo resolvido. Os geradores dos games já esbarraram em problemas que a Vantiz ainda vai encontrar. Uma fase gerada só vale se dá para chegar até o fim, e por isso muitos geradores testam o que criaram antes de entregar. Numa empresa, a operação montada também precisa ser jogável.
Tem um problema que o jogo não tem: num game, dá para gerar o mapa de novo. Na Vantiz, a pessoa vai renomear colunas, mudar campos e adaptar o template, e a próxima geração não pode passar por cima disso.
E tem o risco que a pesquisadora Kate Compton chamou de 10 mil tigelas de mingau de aveia: milhares de resultados tecnicamente diferentes que parecem todos iguais. Se a operação de uma agência e a de uma oficina saírem com a mesma cara, a pessoa sente que recebeu um template.
Rodar um projeto fictício pelo fluxo gerado: todo estado tem saída, nenhuma etapa fica sem responsável.
Gerar de novo, ou melhorar o template, sem passar por cima do que a pessoa já mudou.
O plano gerado já chega com as primeiras tarefas e a próxima ação no Início.
Medir o que muda entre as operações geradas, para não virarem o mesmo template com outros nomes.
Cada peça gerada mostra a origem: veio do que você contou sobre a aprovação do cliente.
Decidir o que sempre sai de um template curado e o que a TRAMA pode montar livre.
O que não fazer
Tem uma lista do que eu não quero fazer, e ela é tão importante quanto o plano. Espalhar o setor como condição pelo código. Deixar a IA decidir e executar uma cadeia de ações sem regra. Usar IA para prazo vencido ou para somar valores. Tratar uma resposta bem formatada como verdade. E prometer ganho de tempo ou de custo sem medir no uso real.
O que fica
Ainda é a fase 1, e o que fica por enquanto é o critério: peças pequenas, regra no código, a IA onde ela ajuda a julgar e a pessoa revisando o que vai ao ar.
“Poucas regras bem escolhidas montam um mundo inteiro.”
Bastidores
A base deste estudo é o documento de arquitetura procedural da Vantiz, escrito em conversa com IA e revisado para separar o que é alvo do que é prova. O que aparece como já rodando foi conferido no produto.
Fontes
- Shaker, Togelius e Nelson (2016). Procedural Content Generation in Games. Springer. (abre em nova aba)
- Togelius et al. What is Procedural Content Generation? Mario on the borderline. (abre em nova aba)
- Emily Short (2016). Bowls of Oatmeal and Text Generation, sobre o problema descrito por Kate Compton. (abre em nova aba)
- Salesforce. Platform Multitenant Architecture. (abre em nova aba)
- Schema driven distributed user interface generation. (abre em nova aba)