Devaneios Concretos · Guia

Quando conversar com a IA e quando escrever um prompt estruturado

Conversar com a IA quando você ainda está descobrindo, estruturar o prompt quando já sabe o que quer. As seis camadas de um bom prompt e a hora de trocar de modo.

Ilustração: a engenheira, de headset, segura o microfone do fone junto da boca e fala com intensidade, gesticulando, diante de uma máquina retrofuturista de seis camadas que reage à voz dela com ondas nas telas e papéis voando
Leitura08min
Capítulos10
Imagens03
Publicado em

A maioria das pessoas conversa com a IA do jeito que manda áudio pro amigo: vai jogando frase atrás de frase até a coisa fazer sentido. Não tem nada de errado nisso. O erro é achar que é sempre assim que funciona.

A minha posição: existem dois modos de conversar com a IA. No exploratório, você conversa sem roteiro, aprofunda e muda de assunto até chegar a uma conclusão, como num debate. No estruturado, você já sabe onde quer chegar e direciona, num prompt montado na hora ou num GPT customizado que já se comporta como você precisa. Os dois são legítimos. O que separa quem usa IA de quem sabe usar é reconhecer em qual momento você está e trocar de modo na hora certa.

E muita gente ainda nem usa IA com frequência: nos Estados Unidos, só 15% dos funcionários usam todo dia no trabalho, e quase metade usa raramente ou nunca (Gallup).

Com que frequência os funcionários usam IA no trabalho
Com que frequência os funcionários usam IA no trabalho
Todo dia15%
Algumas vezes por semana15%
De algumas vezes por ano a algumas por mês22%
Raramente ou nunca48%

Cada quadrado é 1% dos funcionários dos Estados Unidos, em maio de 2026. A última faixa é o que sobra de quem não chega a usar algumas vezes por ano.

Fonte: Gallup

Entre quem trabalha no computador, o uso é maior. Mas usar não é saber usar: 73,5% usam com frequência, só que em tarefas soltas, e só 5,5% têm a IA em fluxos que se repetem (Section). É a mesma distância entre conversar tarefa a tarefa e estruturar o que se repete.

O quanto os profissionais sabem usar IA no trabalho
O quanto os profissionais sabem usar IA no trabalho
Praticantes e especialistas: fluxos que se repetem, automações e agentes5,5%
Experimentadores: usam com frequência, em tarefas soltas73,5%
Novatos: ainda não tiram valor da IA20,9%

Cada quadrado é 1% dos 5.026 profissionais do conhecimento ouvidos nos Estados Unidos, em 2026: um grupo diferente do da Gallup, que inclui todos os funcionários. Os níveis são os da própria pesquisa.

Fonte: Section, AI Proficiency Report

Deixa eu voltar à troca de modo, porque é dela que este texto trata. Repare que ela fala da forma da conversa, não do que você pede pra IA fazer. O papel que você dá pra ela, seja especialista, parceiro de ideias, analista ou executor, é outro eixo, e eu falo dele no texto O que sobra quando a IA consegue fazer as telas. Os dois se combinam: dá pra explorar com um parceiro de ideias e estruturar o pedido pra um analista. Aqui, a pergunta é só quando conversar e quando estruturar, e eu começo pela conversa.

Explorar é iterar

Quando comecei a construir o meu site pessoal, eu não tinha a estrutura na cabeça. Sabia mais ou menos o que queria que a pessoa sentisse. Então cheguei na IA com algo solto: quero um site que faça a pessoa entender quem eu sou, ver as empresas por onde passei e alguns cases de como eu resolvo problemas. A IA trouxe uma ideia, eu ajustei; trouxe outra, eu refinei. Nessa troca, as seções do site foram aparecendo.

Ilustração: o designer, de prancheta e lápis, caminha por uma trilha na neblina ao lado de um robô de patrulha alto e blindado, de farol aceso, e o trajeto vai se desenhando no chão
Explorar

Ali eu não estava fazendo prompt errado. Estava explorando, usando a IA pra pensar junto, e pra quem é de design isso tem nome: iteração. Iterar é diferente de interagir. Interagir é conversar sem um propósito claro; iterar é aprofundar um assunto a cada rodada, com um objetivo real de onde você quer chegar. O modo exploratório é exatamente a fase de iteração que a gente faz no dia a dia do design thinking. Então, quando alguém disser que você "tem que" usar framework e prompt estruturado sempre, dá pra responder com tranquilidade: tudo bem explorar. É a partir daí que você evolui.

Quando a conversa vira desperdício

O outro momento é quando você já sabe exatamente onde quer chegar. Aí, ficar refinando de pouquinho em pouquinho vira desperdício do seu tempo, e de token.

Ilustração: tarde da noite, o designer, cansado diante de um terminal, está cercado por metros de fita de papel com a conversa, enquanto um contador na parede não para de subir
Desperdício

No meu uso, isso acontece muito no meio de um projeto: chego com uma pesquisa que acabei de fazer, entro no modo exploração e, conforme o assunto fica mais claro, migro pro estruturado pra ter respostas mais assertivas. Foi assim num discovery que fiz pra uma grande distribuidora de combustível. Discovery é exploratório por natureza, e no começo a conversa com a IA ajudou muito. Mas, depois de agrupar as entrevistas, eu quis extrair delas dados específicos pra sustentar a apresentação, e aí a conversa já não bastava: eu precisava de estrutura.

Por que a estrutura funciona

Antes das camadas, vale entender o mecanismo, porque quem entende o porquê nunca mais escreve prompt no escuro. Um modelo de IA responde prevendo a continuação mais provável a partir do que você deu pra ele. Quando o prompt é vago, existe um número enorme de respostas plausíveis, e a mais provável dentro desse espaço gigante é, por definição, a mais média: aquela que serve pra qualquer pessoa e, por isso, não serve direito pra ninguém. A IA não está com preguiça; sem direção, a aposta mais segura dela é a resposta mais central.

Toda informação que você acrescenta corta um pedaço das respostas possíveis. Quando o espaço fica estreito o bastante, a resposta mais provável deixa de ser a genérica e passa a ser a que encaixa no que você pediu. Na prática, você vai tirando da frente as respostas que não queria.

As seis camadas

Voltando ao site, pra seção de cases. Esta é a ordem que eu uso, com o objetivo primeiro porque ele organiza o resto:

  1. Objetivo.O que eu quero que aconteça de verdade. A tarefa é "fazer a seção de cases"; o objetivo é que o visitante entenda como eu resolvo problemas e queira me chamar. Só isso já corta as respostas que tratam a seção como um portfólio bonitinho que não explica nada.
  2. Contexto.Quem eu sou, o que eu ofereço, pra quem é o site. Sem isso, a IA escreve pra um designer genérico. Com isso, escreve pro meu posicionamento e pro meu tipo de cliente.
  3. Tarefa.Só agora a ação concreta: estruturar a seção e me dar três versões de abertura, por exemplo. Depois do objetivo e do contexto, a tarefa já nasce direcionada.
  4. Restrição.Tom, tamanho, o que evitar. No meu caso: sem jargão, sem promessa exagerada, linguagem direta. É aqui que a maioria esquece e perde qualidade. Cada restrição é um corte preciso no espaço de respostas.
  5. Exemplo.Em vez de descrever em palavras o tom que eu quero, mostro uma referência. O exemplo ancora a IA num ponto concreto, em vez de deixar ela adivinhar o que eu quis dizer com "moderno" ou "elegante", que pra cada pessoa é uma coisa.
  6. Critério de qualidade.Como a IA sabe que acertou. Pra mim, uma boa resposta mostra, em cada case, o problema, o que eu fiz e o resultado. Quando eu dou o critério, a própria IA passa a usar ele pra se avaliar. Quase ninguém usa essa camada, e é a que mais muda o resultado.

No fim, saímos de um prompt vago, que daria a resposta genérica de sempre, e fomos cortando até sobrar a resposta que eu queria, com a IA fazendo o mesmo esforço, só que no lugar certo.

Os frameworks são os mesmos blocos

Você provavelmente já viu um monte de sigla por aí: RTF, COSTAR, RACE, CRISPE. Cada uma se vende como o jeito certo de escrever prompt. Na prática, são os mesmos blocos que a gente acabou de ver, organizados e nomeados de outro jeito, pra públicos diferentes.

Não existe um framework certo. O que muda de verdade é o peso de cada bloco conforme o propósito:

PropósitoOnde vai o peso
Escrita criativaTom e audiência
AnáliseObjetivo e critério de qualidade
ProgramaçãoRestrições e casos de borda

Entender os blocos e dosar o peso vale mais que decorar dez siglas.

Quando usar cada um

ModoQuando usarO que você faz
ExploratórioVocê ainda não sabe bem o que querConversa
EstruturadoVocê já sabe onde quer chegarDireciona

Um não é melhor que o outro; o que importa é saber qual usar em cada momento e perceber a hora de trocar.

Ilustração: o designer, com a mão numa alavanca, troca o painel do lado da bússola e do esboço em neblina para o lado da planta com medidas precisas
Quando trocar

Como eu migrei do texto pra voz

Vou terminar com uma coisa pessoal, porque ela amarra tudo. Eu sempre fui do texto. Pensava a ideia inteira na cabeça, reformulava várias vezes e só então digitava. Escrever era o meu jeito de pensar.

Com a IA, comecei a usar muito, e veio um cansaço físico de tanto digitar prompt longo. Pra ganhar velocidade, encurtei o que escrevia. As respostas pioraram, exatamente pelo que este texto explica: prompt curto, espaço de resposta enorme, resposta genérica.

Pra resolver isso sem acabar com as minhas mãos, fui pro microfone, contra o meu próprio instinto. No começo foi difícil, porque eu não tinha o hábito de construir a ideia enquanto falava; virou exercício, e hoje improviso falando muito melhor do que imaginava. E repara que é a mesma tensão do começo do texto: digitar era o meu modo estruturado, em que eu formatava tudo antes de soltar, e falar me jogou no exploratório, construindo a ideia enquanto ela sai.

Sendo honesto: não tem mágica na voz. O modelo recebe só o texto transcrito. O ganho é que, falando, eu me solto e produzo um prompt muito mais rico, e é esse texto melhor que melhora a resposta. Se você pensa melhor escrevendo, continua escrevendo.

Onde isso tem limite

Nenhuma camada salva um objetivo confuso.

Se você não sabe o que quer, a estrutura só organiza a confusão. Por isso a ordem importa: primeiro explorar até ter clareza, depois estruturar.

A pergunta que fica

Quando você percebe que está montando o mesmo tipo de prompt toda semana, dá pra parar de repetir: deixar esse comportamento configurado, como num GPT customizado, pra IA já saber como agir com você. É o modo estruturado levado até o fim. Como fazer isso no Claude e no ChatGPT é o próximo passo dessa série.

Enquanto isso, me conta: você é mais do modo exploratório ou do estruturado? E já percebeu a hora em que precisava trocar?

Compartilhar

Conversa

Comentários

Leandro OtaAutorFixado

Você é mais do modo exploratório ou do estruturado? E já pegou a hora exata em que precisava trocar? Se tiver um prompt que virou rotina, conta qual.

Carregando…

Não aparece. Só uso se precisar te responder.

Os comentários aparecem depois que eu leio.

Leia também

Mais sobre IA.