Devaneios Concretos · Ensaio

A empresa imperfeita é arena, não sala de espera

Uma pessoa veio me pedir conselho de carreira. Estava migrando de área, querendo entrar como product designer, e me contou de uma empresa que admirava de longe: estrutura incrível, design levado a sério, tudo no lugar.

Ilustração: a engenheira deixa uma sala de espera impecável e entra numa oficina movimentada e bagunçada, arregaçando a manga, com faíscas e máquinas pela metade
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Uma pessoa veio me pedir conselho de carreira. Estava migrando de área, querendo entrar como product designer, e me contou de uma empresa que admirava de longe: estrutura incrível, design levado a sério, tudo no lugar. Alguém próximo dela trabalhava lá, em outra área, e adorava.

Só que essa empresa eu conhecia por dentro. Era uma boa empresa, com estrutura legal e gente incrível. Mas não era o mundo perfeito que ela imaginava. De longe, no geral, parece uma coisa. Quando você entra nas squads, no dia a dia, aparecem as barreiras e os processos que você vai ter que aprender a contornar.

A minha posição sobre isso é simples: empresa perfeita em design não existe, e esperar por ela é o jeito mais rápido de desperdiçar onde você está agora. O lugar imperfeito pode ser sala de espera ou pode ser arena. A diferença não está na empresa. Está no que você faz dentro dela.

Maturidade não é uma coisa só

Antes de seguir, vale ser honesto, porque é fácil cair no extremo oposto e sair dizendo que toda empresa é ruim. Existe empresa que chegou numa maturidade de design de verdade, onde o trabalho do designer é muito bom.

O problema é achar que aquela empresa específica que você idealiza é uma dessas, sendo que de fora não tem como saber. E maturidade em design tem caminhos diferentes. O que a liderança de uma empresa entende por design maduro pode não ser a jornada que você quer pra você. Dá pra chegar no lugar dos sonhos e descobrir que a maturidade que tem ali não é a que você procurava.

Eu já fui ela

O que mais me marcou naquela conversa nem foi a empresa idealizada. Foi que, em algum momento, eu olhei pra ela e vi um Leandro do passado.

Ilustração: o designer diante da janela escura do escritório vê, no reflexo, ele mesmo bem mais novo, de mochila no ombro, com pressa de ir embora
Eu já fui ela

Enquanto sonhava com outro lugar, ela reclamava bastante de onde estava. Tapava buraco, fazia o que aparecia, mas não construía nada que fosse dela. Eu já fui exatamente isso.

Entrei na minha primeira empresa ainda na faculdade, como estagiário, pela necessidade de ter um portfólio real. Já entrei sabendo que era só uma ponte. Imaginava que ia ter designer experiente pra me orientar, com a maturidade toda montada esperando por mim. Não tinha. Eu era o único designer estagiário.

E eu entrei no automático. Cada desafio era só mais uma tarefa pra entregar e seguir. Não enxergava oportunidade de mostrar o valor do design ali dentro, não ia atrás e, sendo honesto, nem sabia que dava pra fazer isso. Talvez eu nem tivesse maturidade pra acrescentar ainda.

Na época daquela conversa, eu também não estava numa empresa ideal. Mas eu já não era mais aquele estagiário. A diferença entre mim e ela era o que cada um fazia dentro do lugar onde estava.

O modo passagem

Esse comportamento tem nome, pelo menos pra mim: modo passagem. Quando o lugar não é o ideal, o reflexo é tratar ele como ponte. Faço um portfoliozinho aqui, pego um caso pra mostrar e caio fora pra uma empresa melhor.

Ilustração: num escritório com cara de estação, com relógio grande e painel de partidas, a engenheira trabalha sentada em cima da mala, de olho na hora
Modo passagem

O problema é que, no modo passagem, você entrega morno. E entrega morna não abre porta nenhuma. Aquele projeto que você está fazendo de qualquer jeito podia ser a sua melhor peça de portfólio, e não vai ser porque você decidiu que não valia o esforço.

Tem uma versão ainda mais traiçoeira: quando você se sente desvalorizado, fica com raiva, mas continua acomodado. Não dá o seu melhor porque acha que a empresa não merece, e também não constrói nada que te tire dali. Aí você fica preso de verdade.

Nos dois casos, a saída é a mesma: jogar pra você. Trocar a régua de "o que a empresa merece" para "como eu entrego isso da melhor forma possível, pra subir o meu nível". E montar o seu case, o seu portfólio, a sua identidade pra fora da empresa. Com isso nas mãos, você para de se sentir preso, porque sair vira uma escolha.

A pergunta que eu troco

De vez em quando bate aquele questionamento: será que aqui ainda é o meu lugar? Quando bate, eu troco a pergunta. Em vez de "essa empresa é ruim, falta tudo aqui", ela vira: o que dá pra melhorar daqui de dentro?

Ilustração: numa oficina remendada, o designer, de mangas arregaçadas, abre o painel de uma máquina velha, e o técnico, sorrindo, passa a chave inglesa
Arena

Parece pequeno, mas muda o seu lugar na história. Você deixa de ser vítima do ambiente e passa a ser quem mexe nele. Aquela falta de maturidade que te irrita é espaço vazio esperando alguém ocupar. Muitas vezes a empresa nem percebe que aquilo era um espaço vazio, e melhor ainda: ele fica disponível pra você.

O gás que eu dou nessas horas não é pela empresa. É pra eu evoluir: o que entreguei, onde acertei, onde errei, como faço melhor no próximo, como mostro internamente o valor do que estou fazendo. Quando isso aparece, a empresa costuma passar a olhar de outro jeito, e o reconhecimento pode vir. Se não vier, você sai com um baita case. Ganha de qualquer jeito.

Eu fiz isso num lugar onde não era meu cargo nem minha função mudar nada. Quando saí, tinha mudado. O como fica pra outro texto, mas começou aí: em decidir que aquele lugar não era sala de espera e que, se eu tinha aceitado estar ali, o primeiro beneficiado em fazer bem feito era eu.

Onde essa ideia para

Imperfeição não é abuso. Um lugar bagunçado, com processo capenga e pouca maturidade de design, é arena. Um lugar que te desrespeita, te adoece ou te explora é outra coisa, e ali a decisão madura é sair, não provar valor. Nada neste texto é convite pra aguentar o que não deve ser aguentado.

O recado

Dá o seu melhor independente de onde você está. Não pelo seu chefe, nem pela empresa. Por você. Tudo que você constrói ali dentro vira repertório, reputação e aprendizado de verdade.

A maturidade que falta na empresa não é o seu problema; é a sua chance de ser quem traz ela. Às vezes a empresa não está pronta pra amadurecer, e tudo bem. Você impacta as pessoas à sua volta de qualquer jeito. Quando eu saí de um desses lugares, gente que trabalhou comigo veio me dizer que tinha mudado a forma de enxergar o que é design. Isso valeu mais que qualquer cargo.

Olhando pra trás, os lugares imperfeitos foram os que mais me formaram. E não deu tudo certo sempre: teve projeto em que eu errei feio, feedback duro e coisa que eu jurava que estava boa e estava longe. Isso também me formou, mas fica pra outra conversa.

A pergunta que fica

Decidir que o lugar é arena é o primeiro passo. Mas e quando o projeto em que você apostou para no meio do caminho, e ninguém sabe o que vem depois? É sobre isso o próximo texto.

Enquanto isso, me conta: você está tratando o lugar onde está como arena ou como sala de espera?

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